segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008

Nunes Pereira: homem, artista e padre (1906-2001)


Nascido a 3 de Dezembro de 1906, na pequena povoação da Mata (freguesia de Fajão, concelho da Pampilhosa da Serra), Monsenhor Nunes Pereira aprendeu com o pai as primeiras letras, ingressando mais tarde, após o falecimento do progenitor em 1915, no Seminário de Coimbra.
Ordenado sacerdote em 1929, nesse mesmo ano foi nomeado pároco da freguesia de Montemor-o-Velho, tendo transitado em 1935 para Coja. Posteriormente, em 1952, veio a paroquiar a freguesia de S. Bartolomeu, em Coimbra, onde exerceu a sua missão pastoral até 1980. Foi Vigário Geral da Diocese de Coimbra, membro da Comissão Diocesana de Arte Sacra, professor no Instituto Superior de Estudos Teológicos de Coimbra, um dos fundadores do Movimento Artístico de Coimbra, sócio fundador da Sociedade Cooperativa de Gravadores de Portugal e sócio da Sociedade Nacional de Belas Artes. Para além disso, foi um grande impulsionador do coleccionismo popular e religioso e no jornalismo participou no semanário “Correio de Coimbra”, aí desempenhando as funções de chefe de redacção cerca de 20 anos. Escreveu vários livros e tornou-se célebre na execução da gravura e do vitral, tendo criado a Oficina-Museu do Seminário Maior de Coimbra, onde se encontram grande parte das suas obras artísticas e a colecção completa das 25 gravuras em madeira dos Contos de Fajão, "obra artística e etnográfica de grande valor e qualidade". Em 1986, a Câmara Municipal de Coimbra atribuiu-lhe a medalha de ouro da cidade e no final da sua vida viveu no Seminário Maior de Coimbra, onde tinha a sua oficina e trabalhava. A 1 de Junho de 2001, com 94 anos, fecharia os olhos para sempre.
Em Montemor-o-Velho realizou as primeiras gravuras, desenhadas à pena, para ser mais fácil a reprodução, uma vez que já nesta altura escrevia para jornais e revistas. Começou por fazer carimbos, passou depois para a xilogravura e fez a ilustração do seu primeiro livro de versos, publicado em 1934.
Utilizou o seu talento artístico para cativar os seus paroquianos, viabilizando assim muitas das iniciativas que organizou. Publicou na imprensa artigos e desenhos sobre várias freguesias do Concelho, que incidiram sobretudo nos monumentos, conseguindo apoio financeiro para o restauro da Igreja do Convento de Nossa Senhora dos Anjos, em Montemor-o-Velho.
Em termos sociais, a sua acção também foi notável. Foi um dos fundadores dos Bombeiros Voluntários e, na sua residência, deu apoio a muitos jovens a quem leccionava aulas de desenho. Também naquele espaço organizou diversas exposições."Da Terra e do Céu - Versos e Gravuras de Madeira por Augusto Nunes Pereira" foi integralmente escrito em Montemor-o-Velho, contando esta reedição com desenhos e poemas inéditos.

Fonte: site oficial da Câmara Municipal de Montemor-o-Velho.

domingo, 20 de maio de 2007

Coreto Municipal


Os concertos dados pela Sociedade Filarmónica 25 de Setembro eram de tal maneira apreciados que, a 13 de Agosto de 1932, a Comissão Executiva da Câmara Municipal de Montemor-o-Velho delibera, face à ausência de um espaço nobre ao ar livre para “concertos musicais”, mandar construir um coreto na Avenida José de Nápoles, anteriormente designada de “Alameda da Feira” ou “Avenida da Liberdade”, mais ou menos a meio do espaço onde se realizava o mercado quinzenal (Feira).
Alguns meses mais tarde, a 17 de Dezembro, a Câmara adjudica os trabalhos de pedreiro e serralheiro a Joaquim Rodrigues Medina, pedreiro do lugar da Quintã, freguesia da Carapinheira, por 5.000$00, com as seguintes condições: o arrematante era obrigado a fornecer todos os materiais necessários; a alvenaria a empregar nas paredes seria extraída das pedreiras de São Gens, propriedade de Francisco da Costa Rebelo, desta vila; as fundações dos alicerces teriam 1m de altura por 60 cm de espessura, e as paredes, do nível do terreno até ao pavimento superior, 50 cm de espessura, sendo que a cal a utilizar nas mesmas viria dos fornos do Amieiro ou Meco, na proporção de 1 m³ de cal por 2 m³ de areia do rio; os emboços e rebocos seriam feitos com cal hidráulica pelo exterior e com cal gorda do Meco pelo interior, possuindo cada corpo um ventilador; o pavimento da cave seria de “calçada à portuguesa” devendo levar uma camada de argamassa, feita com cimento e areia do rio, de 3 cm de espessura; proceder à feitura de uma escada móvel de madeira com 80 cm de largura e composta por 8 degraus; o pavimento superior seria feito em cimento areado, com a competente armação em ferro, levando uma porta em ferro; construir as colunas, assim como os corpos de cima que serviam de sustentação à armação da cobertura, em cimento areado; fazer 8 corpos de grades de ferro, com a espessura de 15 mm, em vergalhão; fazer uma porta em ferro com ventilador; todos os trabalhos executados em cimento areado seriam feitos com cimento LIZ e areia lavada do rio, na proporção de ⅓ de cimento por ⅔ de areia, conforme a planta; o prazo para a conclusão das obras seria de três meses, contados a partir do acto de adjudicação.
Relativamente à construção da cúpula do coreto, a mesma só viria a ser arrematada a 5 de Agosto de 1933, a Evaristo Ferreira, carpinteiro desta vila, por 4.000$00, comprometendo-se o mesmo a: fornecer todos os materiais necessários, devendo a madeira ser de “pinho da terra”; construir o tecto todo em madeira, sendo os corpos apainelados; fazer 8 corpos almofadados, no referido “pinho da terra”, com a espessura de 3 cm; colocar telha de Valongo, longa e preta, do tipo n.º 2, de 30 cm por 20 cm; proceder aos remates nos rincões e na pirâmide do centro da cúpula com zinco n.º 12; entregar a obra concluída até ao dia 15 de Setembro, inclusive, provavelmente a pensar numa inauguração que coincidisse com o 41.º aniversário da Sociedade Filarmónica 25 de Setembro.
Contudo, chegados ao dia do aniversário, o coreto não pôde ser inaugurado já que o primeiro arrematante ainda não havia colocado as grades e a porta, apesar de na vila constar que as mesmas já estariam feitas.
A inauguração só se viria a concretizar dois meses depois, a 31 de Dezembro, com a presença da Filarmónica que aí deu um concerto a todos os títulos inolvidável, quer pela qualidade do regente, músicos e repertório, quer pelo facto de ter sido o primeiro de muitos que se lhe seguiram.
Inaugurado o coreto, havia que “requalificar” o espaço envolvente dando-lhe a dignidade que a presença de tal obra exigia, pelo menos isso era o que pensavam alguns montemorenses como o correspondente do Diário de Coimbra nesta vila quando, dirigindo-se ao presidente da Câmara Municipal, apelava à demolição imediata, nas proximidades do coreto, de umas “barracas imundas que servem para mictórios e que representam uma autêntica vergonha”.
Com a construção, em 1988, do Jardim Municipal e do seu anfiteatro, o coreto, em cujo redor “gerações de jovens dançaram, namoraram e sonharam”, entra num processo de lenta agonia, definhando e degradando-se a cada dia que passava. De facto, para além do anfiteatro se ter revelado, pela sua configuração e qualidade (espacial, acústica, visual, confortabilidade, proximidade, etc.), um local mais atraente para a realização de concertos, entre muitas outras manifestações culturais, também a presença do coreto dentro do perímetro do dito Jardim Municipal não foi benéfica para aquele, quer pela sua má localização dentro do mesmo, quer pela sua exclusão, por motivos óbvios, do recinto das “Festas da Feira Anual”, retirando-lhe o protagonismo de que outrora gozara como símbolo das festas associativas em Montemor-o-Velho.No entanto, durante Verão de 2005 recebeu importantes obras de beneficiação, orçadas em mais de 15.000 euros, que lhe devolveram a beleza e nobreza há muito perdidas. Das obras realizadas, cuja “cerimónia da recuperação” e apresentação oficial aos montemorenses decorreu no dia 10 de Setembro, merecem especial destaque: a manutenção das cores originais amarelo, cinzento e branco; a colocação de uma escada de ferro forjado, com 9 degraus, virada a Oeste (Poente); a substituição do inestético telhado em folhas de zinco por um telhado de oito águas, em telha lusa, a terminar em concha e folha com pináculo; a colocação de um tecto de madeira de pinho, com oito secções e fecho ao centro em forma de candeeiro; a aplicação de uma sanefa de madeira recortada ao longo de todo o beiral; e a afixação, em quatro dos oito corpos do piso superior e de forma intercalada, de grandes painéis fotográficos que homenageiam todos os que fizeram parte da Associação Filarmónica 25 de Setembro, das Orquestras Tivoli-Jazz Montemorense e Serra e Moura, e do Conjunto Montemayor, afinal de contas os agrupamentos que mais marcaram os 72 anos de história deste coreto.

terça-feira, 24 de abril de 2007

Castelo



Os vestígios arqueológicos permitem remontar a ocupação da zona do castelo pelo menos à Idade do Bronze. Com efeito, existe no Museu Nacional de Arqueologia (Lisboa) uma ponta de lança tipo Baiões oriunda do castelo, datável deste período cronológico.
Do período romano encontramos os silhares reutilizados na base da torre de menagem, não sendo de desprezar a existência neste local de uma atalaia romana, devido à sua grande importância geo-estratégica.
Da época visigótica há a informação de ter aparecido no castelo uma pedra de ornato bárbaro-popular.
Também a passagem muçulmana deixou vestígios, como sejam uma coluna, capitéis e um fragmento de estuque (que deram entrada no Museu Machado de Castro de Coimbra). A primeira referência à fortificação remonta ao séc. IX, embora o alcáçar árabe deva ter origem no século anterior. Nesta altura, o recinto fortificado devia resumir-se a pouco mais que a actual zona do castelejo, na coroa da colina. O célebre geógrafo árabe Edrisi refere-se a um castelo muito forte chamado Munt Malur, no séc. XII, altura em que a sua importância é acrescida devido ao processo da Reconquista. Em 990, Almançor tomou o Castelo, reconquistado, em 1006, por Mendo Luz. As partes mais antigas são a base da torre de menagem, onde se empregaram silhares romanos (eventualmente da alta Idade Média), as duas fortes torres junto à Porta do Rosário (poderão ser da época das Infantas), bem como os traçados do castelejo e da cerca principal.
No tempo da formação da nacionalidade, com os castelos de Miranda, Penela, Soure e Santa Eulália, formava a cintura avançada do sistema defensivo da cidade de Coimbra, constituindo para os mouros o seu maior incómodo nesta região. Com efeito, o castelo mudou várias vezes de mãos, com as consequentes destruições, sendo definitivamente tomado pelas forças de Fernando Magno em 1064, aquando da tomada de Coimbra. Nesta conturbada época o castelo devia ser formado pelo castelejo e pela cerca principal.
O recinto intra-muros é enriquecido no séc. XI com a construção da Igreja da Alcáçova e do Paço das Infantas, que ficará para sempre ligado ao facto de aí ter sido decidida a morte de Inês de Castro. A perda da sua importância geo-estratégica fez com que o castelo se fosse paulatinamente degradando.
Em 1109, D. Teresa e seu filho, D. Afonso Henriques, teriam ordenando novas reformas no Castelo. Em 1210-11, deu-se a confirmação papal do legado do Castelo de D. Sancho I a sua filha D. Teresa. Nas lutas entre D. Afonso III e D. Sancho II esteve do lado deste. O Infante D. Pedro mandou-o ampliar com uma faixa de muralhas, pela encosta do monte até ao sopé, pelo lado Poente. O príncipe D. Afonso IV tomou-o na rebelião contra D. Dinis. No século XIV, o Castelo deve ter tido uma reforma geral, sendo provavelmente desta época a barbacã e o cerco Norte.
A 15 de Maio de 1875, Damião Luís de Carvalho comprou o cercado Norte (onde está a Capela de S. João) por 16$000 e em 1898 comprou cinco faixas de terreno dentro do castelo, entre a Porta do Rosário e a Igreja da Alcáçova. No ano de 1877, foi construída a torre do relógio. Em 1936, realizou-se a reconstrução dos panos de muralha; em 1940, a consolidação e reconstrução de paredes; em 1958, a instalação eléctrica; em 1969, reparação do poço do Abade João e muralhas próximas, libertação da muralha e sondagens arqueológicas; e em 1986 sofreu obras de beneficiação.
Na década de 90 do século XX, foi instalada uma casa de chá, entre os muros que restam do Paço das Infantas, obra do Arquitecto João Mendes Ribeiro, do Ippar, já aberta ao público. Associada à torre de menagem está a chamada "Lenda das duas Arcas". No campo da aequitectura, trata-se de uma fortaleza de planta irregular, alongada, respeitando a geografia do terreno. Constituído por castelejo, cerca principal,barbacã envolvente, cercado do lado Norte e reduto inferior, ligado a este. A barbacã é um muro baixo, ameado, sem torres, que envolvia toda a fortaleza principal. Pelo lado Norte, em direcção ao vale, dois muros perpendiculares à muralha antiga, com adarves em degraus contínuos e terminando em fortes torreões angulares. As duas portas que restam, a da Peste ou de Coimbra e a de Nossa Senhora do Rosário ou do Sol, eram simples portas da barbacã. Teve também o cemitério municipal (anexo à Igreja da Alcáçova), retirado em meados do século XX.

Fonte: Roteiro Medieval (Câmara Municipal)